O Grupo G produziu um dos cenários iniciais mais curiosos desta Copa do Mundo: quatro seleções, quatro empates, quatro pontos isolados, e uma tabela separada apenas pelos critérios de desempate. Quando Belgium enfrentar o Iran às 12h30 (IST) de 22 de junho, os dois lados chegam com a mesma campanha, mas com sentimentos bem diferentes a respeito dela. O Iran está na liderança, a Belgium em terceiro, mas a diferença é ilusória — todos estão igualados com um ponto e igualados no saldo de gols, o que faz desta partida, na prática, um duelo direto por respiro na tabela. Vença e a classificação fica praticamente ao alcance da mão; perca e a matemática fica hostil com uma rodada ainda por disputar. Para a Belgium em especial, que saiu de sua estreia contra o Egito com um empate de 1 a 1 que terá frustrado um elenco deste calibre, esta é a noite em que a campanha ou deslancha ou começa a ficar desconfortavelmente apertada.
Os primeiros confrontos do grupo contaram suas próprias histórias. A Belgium empatou em um morno 1 a 1 com o Egito, marcando uma vez e sofrendo uma vez, e pelos números pareceu organizada mais do que dominante — um gol marcado, um sofrido, nenhum jogo sem sofrer gol, um único ponto no bolso. Não há motivo para pânico nisso, mas há uma instrução clara implícita: uma equipe que carrega tanto talento ofensivo não pode continuar se contentando com um gol por jogo. O Iran, em contrapartida, esteve envolvido no jogo mais aberto do grupo, dividindo seis gols no 2 a 2 com a New Zealand. Dois marcados, dois sofridos, com Rezaeian e Mohebi ambos balançando as redes — os dois únicos jogadores desta partida que já marcaram no torneio. Esse empate maquia o lado defensivo da atuação do Iran, e é essa a tensão central da partida: o Iran claramente consegue te machucar no ataque, mas levou dois gols de um adversário que a Belgium esperaria controlar, e é exatamente essa a brecha que a Belgium vai querer desesperadamente explorar.
Em qualidade individual, este é um confronto que a Belgium deveria vencer no papel, e os nomes deixam claro o porquê. Romelu Lukaku traz para a equipe 126 jogos e impressionantes 90 gols pela seleção, vindo do Napoli, o tipo de presença na área construída precisamente para a situação que a Belgium provavelmente vai encontrar. Ao lado dele, Kevin De Bruyne — agora também no Napoli, 119 jogos e 37 gols — segue sendo a fonte mais óbvia da criatividade necessária para destravar uma defesa aferrolhada, enquanto o veterano Axel Witsel, 138 jogos e agora no Girona, dá ao meio-campo uma base calma e experiente. Essa é uma espinha dorsal que está há muito tempo em torneios. A questão é se a Belgium consegue transformar essa reputação em gols, porque até agora reputações não têm marcado no Grupo G.
O Iran não está aqui para fazer número, e a experiência em suas fileiras é genuína. Ehsan Hajsafi, o zagueiro do Sepahan, tem extraordinários 146 jogos — mais do que qualquer um em campo — e Mehdi Taremi, do Olympiacos, é um atacante de verdadeira estatura internacional, com 106 jogos e 60 gols no currículo. Alireza Jahanbakhsh, atualmente no Dender, soma 98 jogos e uma familiaridade com o futebol europeu pela ponta. Esta é uma seleção que sabe se organizar, sabe frustrar, e mostrou contra a New Zealand que carrega perigo no contra-ataque quando lhe dão espaço para correr. Só o Taremi já é motivo suficiente para a linha defensiva da Belgium manter o foco; uma equipe que já sofreu um gol neste torneio não pode se dar ao luxo de se lançar demais e deixar um finalizador desse nível vindo em cima dela.
O desenho do jogo, então, praticamente se escreve sozinho. O caminho mais lógico do Iran para mais um ponto é negar espaço à Belgium, ficar compacto e confiar em seus atacantes para aproveitar ao máximo qualquer transição. O desafio da Belgium é o mais antigo do futebol de torneios — como furar uma equipe que não quer a bola. É aí que paciência e amplitude se tornam tudo, porque um bloco baixo não é desfeito pela força, e sim esticando-o, movimentando-o e esperando pela brecha. Com De Bruyne para municiar e Lukaku para atacar a bola, a Belgium tem as ferramentas; o que faltou contra o Egito foi o poder de decisão para usá-las. Há também a questão psicológica. O Iran lidera o grupo pela ordem alfabética dos critérios de desempate, e não por mérito, e sabe que um segundo empate ainda pode deixá-lo em posição forte, o que só reforça a probabilidade de uma abordagem cautelosa e de baixo risco. A Belgium, em terceiro e precisando se impor, não tem esse luxo — precisa dos três pontos, e precisa começar a transformar qualidade em gols antes que o grupo fique ainda mais apertado.
Para registro, esta é a primeira vez que estes dois se enfrentam em uma Copa do Mundo, então não há histórico em comum em que se apoiar — apenas o momento à nossa frente e o talento nas escalações. Pesando tudo, nosso modelo pende firmemente para a Belgium e vai um passo além de uma simples vitória, dando como palpite a Belgium −1 com uma confiança de 72. A lógica é simples: o Iran provavelmente vai se fechar e buscar frustrar, e a tarefa da Belgium passa a ser de paciência e amplitude para abrir esse bloco baixo. O handicap é a aposta mais ousada, e se apoia na convicção de que, uma vez que a Belgium furar uma defesa que já mostrou poder ser furada, seu poder de finalização superior deve transformar uma vantagem mínima em uma confortável. O risco é óbvio na velocidade de Taremi no contra-ataque, mas para uma equipe montada em torno de Lukaku e De Bruyne, esta é exatamente o tipo de noite para a qual foram reunidos para vencer — e vencer com clareza.
Bélgica e Irã não se enfrentaram antes neste torneio — pelos nossos registros, este é o primeiro confronto delas na Copa do Mundo de 2026.