O Brasil chega à sua segunda partida no Grupo C em 20 de junho sabendo que a estreia tranquila que desejava nunca aconteceu. Um empate por 1–1 com Marrocos, com Vinícius abrindo o placar, deixou o pentacampeão mundial na segunda posição no saldo de gols, atrás da Escócia, que discretamente venceu sua estreia por 1–0 justamente contra o adversário que o Brasil agora enfrenta. Esse é o subtexto incômodo deste início às 6h00 (IST): o Haiti já foi derrotado neste grupo, mas perdeu por apenas um gol, para uma seleção escocesa que ditou o ritmo logo de cara, e é o Brasil quem ainda busca sua primeira vitória. Empatar com Marrocos não é nenhuma vergonha, mas para uma equipe dessa estatura somar apenas um ponto na partida de abertura transforma o segundo jogo em algo muito próximo de um confronto que precisa vencer. Qualquer coisa abaixo de três pontos e a conta, num grupo apertado em que três das quatro seleções estão separadas por um único ponto, começa a ficar desconfortável bem rápido.
Os números da rodada de abertura contam sua própria história modesta. O Brasil marcou um gol e sofreu um, uma média de gols marcados e sofridos que fica exatamente em um para cada lado, e ainda não conseguiu um jogo sem sofrer gol. Nada disso grita Seleção em grande fase, mas vale lembrar que esse é um retrato de uma única partida, contra um adversário que também levou um ponto. Nossa leitura sobre o Brasil se apoia na coluna do time mais do que no placar. Marquinhos, com 105 jogos pela seleção e um currículo de Liga dos Campeões no Paris Saint-Germain, comanda uma defesa que pareceu ajustada mesmo num jogo de empate, e atrás do meio-campo está Casemiro, com 86 jogos e aquele tipo de disciplina posicional que sufoca exatamente as transições que o Haiti vai esperar acionar. E ainda tem Neymar, de volta ao Santos e levando 128 jogos e 79 gols pela seleção para este torneio, de longe o atacante mais decorado de qualquer uma das escalações. Vinícius já tem seu gol nesta Copa do Mundo, e uma linha de ataque com esse perfil falhar em furar a lanterna do grupo duas vezes seguidas seria uma surpresa de verdade.
O Haiti, por sua vez, não chega como mero coadjuvante, e seria preguiçoso tratá-lo assim. A derrota por 0–1 para a Escócia foi uma margem, não uma goleada, e uma equipe que perde por apenas um gol para a líder do grupo claramente tem organização. A preocupação, do ponto de vista haitiano, está no outro lado do campo: não conseguiram marcar na estreia, estão com zero ponto e saldo de gols negativo de um, na lanterna da tabela, e agora precisam encontrar um caminho através de uma defesa brasileira que, apesar de toda a conversa sobre um começo travado, sofreu apenas um gol. Suas esperanças se apoiam fortemente em Duckens Nazon, um centroavante com 44 gols pela seleção e agora no Esteghlal, cujos números neste nível exigem respeito, e na experiência do goleiro Johny Placide, 82 jogos e no Bastia, que pode muito bem ser o homem mais ocupado em campo. Ricardo Adé acrescenta inteligência defensiva vindo do LDU Quito. Se o Haiti quiser se manter vivo neste jogo, será com Placide segurando o time no início e Nazon transformando a única chance no contra-ataque.
Essa ameaça em contra-ataque é o fio desencapado desta partida e a razão pela qual ela não é bem a formalidade que a tabela poderia sugerir. O Haiti vai se postar atrás, absorver a pressão e procurar lançar Nazon no espaço deixado pelas costas de um Brasil que vai jogar muita gente para frente atrás da vitória de que precisa. A questão é se a defesa brasileira, com Marquinhos orientando e Casemiro protegendo, consegue administrar esses momentos enquanto ainda marca o suficiente do outro lado para tornar a margem decisiva. Como esta é a primeira vez que essas duas nações se enfrentam em uma Copa do Mundo, não há um padrão conhecido em que se apoiar, nenhum histórico de o Haiti frustrar o Brasil ao qual recorrer. Os dois lados escrevem numa página em branco, o que indiscutivelmente favorece os favoritos, que simplesmente têm mais qualidade comprovada à disposição.
Pesando tudo, a diferença de elenco é gritante, mesmo levando em conta a disciplina do Haiti e o histórico de Nazon. O Brasil ficou abaixo de seu melhor diante de Marrocos, mas uma Seleção ferida precisando de um resultado, contra o adversário já batido pela líder do grupo, é uma proposta diferente de um time entrando aos poucos no torneio. A pressão da tabela deve afiá-los, em vez de desestabilizá-los. Nosso modelo aponta para o Brasil vencer por dois ou mais gols, dando o palpite de BRA −1.5 com confiança de 78, e a lógica é bem simples: a ameaça do Haiti é real, mas estreita, canalizada por um único atacante no contra-ataque, enquanto a defesa brasileira parece ajustada o bastante para lidar com isso e seu ataque carrega poder de fogo demais para ser contido a uma margem de um gol duas vezes seguidas. O handicap é o nosso palpite aqui. Espere que o Brasil encontre o segundo gol que transforma uma noite tensa numa noite confortável, e que escale na tabela do grupo no processo.
Brasil e Haiti não se enfrentaram antes neste torneio — pelos nossos registros, este é o primeiro confronto delas na Copa do Mundo de 2026.