Dobradinha de Undav nos minutos finais salva a Alemanha na vitória por 2 a 1 sobre a Costa do Marfim
Durante cerca de uma hora no sábado à noite, o roteiro que todos no Grupo E vinham escrevendo para a Alemanha parecia prestes a ser rasgado. A Costa do Marfim, organizada e perigosa, havia aberto o placar com Franck Kessié e defendia a vantagem com o tipo de teimosia que costuma render títulos. E então Deniz Undav decidiu que a noite seria dele. Dois gols nos 22 minutos finais — um para empatar, outro para vencer no apagar das luzes — transformaram um confronto nervoso e cada vez mais apertado em uma vitória por 2 a 1 que mantém a Alemanha no topo do grupo com aproveitamento perfeito. Não foi confortável, não foi bonito por longos trechos, mas foi, no fim das contas, exatamente o resultado de que a Alemanha precisava.
O primeiro tempo havia pertencido aos azarões, e não houve nada de sorte nisso. A Costa do Marfim marcou aos 30 minutos, e o gol carregava a assinatura inconfundível do homem que o fez. Kessié, o meio-campista de 29 anos do Al-Ahli, há muito é o tipo de jogador que chega à área no momento exato em que a partida exige, e aqui ele cronometrou a infiltração e a finalização à perfeição para colocar sua seleção na frente. Foi o tipo de gol que vem naturalmente a um futebolista do seu calibre. Com 102 jogos pela seleção, Kessié é uma das figuras mais experientes deste elenco marfinense, um jogador cuja vivência se mede não em partidas, mas em eras, e o gol foi o seu 15º em nível internacional — e, de forma reveladora, o primeiro em uma Copa do Mundo. O fato de um jogador com a sua bagagem ter esperado tanto tempo por esse marco específico diz algo sobre as margens estreitas do futebol de torneios, e houve um alívio visível na comemoração que se seguiu.
Aquela vantagem se manteve até o intervalo e bem adentro do segundo tempo, e à medida que o relógio passava da hora de jogo, as dúvidas em torno da Alemanha cresciam. Esta é uma seleção que havia atropelado a Curaçao por 7 a 1 na estreia, um resultado que não enganou ninguém quanto ao seu teto ofensivo. E, no entanto, ali estavam eles, correndo atrás do placar diante de um adversário disciplinado, com os gols que haviam fluído tão livremente uma semana antes subitamente difíceis de sair. A Costa do Marfim, por sua vez, parecia perfeitamente capaz de segurar o resultado. Eles haviam aberto a própria campanha com uma vitória por 1 a 0 sobre o Equador, construída exatamente sobre esse molde — um gol e depois uma defesa que se recusava a ceder — e por longos trechos pareceu que poderiam repetir o truque em um palco muito maior.
Undav muda a temperatura
Então veio o minuto 68, e com ele a primeira intervenção decisiva de Undav. O atacante do VfB Stuttgart, de 29 anos e ainda uma espécie de revelação tardia no cenário internacional, encontrou a finalização pela qual a Alemanha vinha se esforçando, e o empate mudou a temperatura de todo o confronto. De repente era a Costa do Marfim na defensiva, de repente o ímpeto que havia sido deles por uma hora tinha se esvaído, e de repente a Alemanha acreditou. Há uma crueldade particular em sofrer o empate depois de defender tão bem por tanto tempo, e dava para sentir a mudança no ritmo da partida a partir daquele momento.
A Alemanha foi em busca da vitória, e a conquistou da forma mais dramática que se pode imaginar. Aos 90 minutos, com o jogo aparentemente caminhando para um empate que teria soado como uma vitória moral para a Costa do Marfim, Undav marcou de novo. O seu segundo da noite, e o segundo da Alemanha na partida, chegou exatamente no instante em que os visitantes deviam estar contando os segundos para um ponto suado. Não havia mais como reagir. Os dois gols levaram a conta de Undav nesta Copa do Mundo a três, um retorno que o coloca entre as verdadeiras histórias da fase de grupos até aqui e ressalta a rapidez com que ele se tornou indispensável a este ataque alemão. Com apenas nove jogos pela seleção, ele já marcou seis vezes pelo seu país — e metade desses gols veio neste torneio. Essa é a trajetória de um jogador agarrando a sua oportunidade.
A dobradinha também conta uma história tática sem que seja preciso inventar nada. A Alemanha não desmontou a Costa do Marfim como havia desmontado a Curaçao; ela os desgastou, e quando as aberturas surgiram, vieram pelo homem cuja função é estar no lugar certo quando as chances finalmente aparecem. O primeiro gol de Undav acalmou os nervos da Alemanha; o segundo resolveu o confronto. Entre esses dois momentos estava a diferença entre um empate que teria reaberto o grupo e uma vitória que, por ora, mantém a Alemanha no comando do próprio destino.
O que isso significa para o Grupo E
A tabela conta a versão mais clara da história. A Alemanha está no topo do Grupo E com duas vitórias em dois jogos e os seis pontos máximos, com um saldo de gols imponente de mais sete graças aos nove marcados e apenas dois sofridos nas duas partidas. A goleada sobre a Curaçao fez o trabalho pesado nesse saldo, mas a vitória sobre a Costa do Marfim cumpriu a tarefa mais importante de preservar a invencibilidade e a liderança. Faltando um jogo na fase de grupos, fora contra o Equador no dia 26 de junho, a Alemanha está na posição mais forte possível — uma seleção que já garantiu os pontos e agora pode encarar a partida final sem a pressão de precisar de um resultado.
Para a Costa do Marfim, a derrota é um revés, mas está muito longe de ser um desastre. Eles seguem em segundo no grupo, com três pontos, em pé de igualdade nas contas que importam e, crucialmente, ainda no controle das próprias chances de classificação. A derrota deixa o saldo de gols em zero — dois marcados, dois sofridos — o que serve de lembrete de como foram apertados os seus dois jogos. Eles venceram o Equador por um gol e perderam para a Alemanha por um gol, e não há vergonha alguma em ser superado pelos líderes do grupo em um duelo que lideraram por tanto tempo. A partida final, fora contra a Curaçao no dia 26 de junho, agora carrega um peso enorme: uma vitória ali praticamente garantiria a classificação, e pelo que mostraram nos dois primeiros jogos, eles têm todos os motivos para acreditar que podem conquistá-la.
As duas seleções que vêm logo atrás estão ficando sem espaço. O Equador, apesar daquele empate sem gols na estreia e de uma derrota apertada, está em terceiro com um único ponto, enquanto a Curaçao — que levou o 7 a 1 da Alemanha — fecha a tabela com um ponto e saldo de gols de menos seis. A matemática da rodada final começa a se cristalizar, e a leitura mais simples dela é que Alemanha e Costa do Marfim têm as cartas na mão. O resultado de sábado em nada mudou a hierarquia no topo; se algo fez, foi confirmá-la.
Onde nosso palpite errou
Seria negligência não submeter o nosso próprio prognóstico pré-jogo à luz, porque este é um que erramos. Apostamos na Alemanha para vencer por pelo menos um gol de diferença — GER −1 no handicap — com 72% de confiança, e a lógica por trás disso era bastante direta. Nossa leitura era a de que o goleiro da Costa do Marfim havia sido o seu jogador mais ocupado até então e que o peso ofensivo da Alemanha acabaria por prevalecer, produzindo uma margem confortável. A primeira parte dessa tese se sustentou; a segunda, não. A Alemanha venceu, mas venceu por um único gol, e uma margem de um gol é precisamente o cenário que o handicap −1 não premia. O palpite entra como um erro.
O que subestimamos? Principalmente, a convicção da atuação da Costa do Marfim no primeiro tempo. Esperávamos um jogo de mão única, no qual os visitantes absorveriam a pressão e contariam com a sorte; em vez disso, eles abriram o placar com Kessié e defenderam a vantagem com autoridade real por boa parte de uma hora. Estávamos certos de que a Alemanha precisaria que seus atacantes entregassem, e Undav cumpriu o papel — mas uma dobradinha que chega aos 68 e aos 90 minutos é a própria definição de uma vitória apertada, não da goleada que o nosso handicap exigia. O 7 a 1 sobre a Curaçao claramente influenciou nossas expectativas quanto ao teto da Alemanha, e é um lembrete útil de que uma goleada sobre o time mais fraco do grupo é um guia ruim para prever como uma equipe se sairá diante de um adversário organizado e motivado. A confiança de 72% parece, em retrospecto, um número que deu pouco crédito à resiliência que a Costa do Marfim já havia demonstrado ao vencer o Equador.
Nada disso deve diminuir o que a Alemanha conquistou. Vencer feio é uma habilidade por si só, e as seleções que ganham torneios costumam ser aquelas que encontram um caminho nas noites em que o futebol se recusa a fluir. A dobradinha tardia de Undav foi ao mesmo tempo um resgate e uma declaração de intenções, e deixa a Alemanha exatamente onde queria estar — no topo do Grupo E, com seis pontos em seis, levando a forma e o ímpeto para a rodada final. A Costa do Marfim vai lamentar a maneira da derrota, mas sai deste confronto de cabeça erguida e com o seu destino ainda nas próprias mãos. A última rodada, no dia 26 de junho, promete decidir um grupo que, após duas rodadas, ficou apertado o suficiente para valer genuinamente a pena assistir.
